quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Feliz Natal!

O ano acabou e só nos resta recomeçar do zero em 2011.

Embora resoluções de Ano Novo não tenham muita credibilidade, nós queremos ler e escrever mais no próximo ano, e compartilhar nossas impressões literárias com os leitores do Guia com mais frequência e assiduidade.

Enquanto isso, torcemos para que vocês tenham comprado livros para presentear neste Natal, e ganhem livros para ler nos feriados ou nas férias.

Eis a nossa ideia de uma árvore de Natal perfeita:



FELIZ NATAL!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O milagre das palavras

Os leitores do angolano José Eduardo Agualusa podem comemorar: tem romance novo nas livrarias. "Milagrário pessoal", editado no Brasil pela Língua Geral (editora da qual o autor é sócio), foi lançado ontem em São Paulo, na Livraria da Vila, com a presença do escritor.


Acompanhado da atriz Bete Coelho, Agualusa participou de uma leitura dramática de trechos do novo romance seguido de um bate-papo com leitores sobre sua obra. Contou que o ponto de partida de "Milagrário pessoal" foi seu encontro, durante um jantar com amigos em Lisboa, com uma mulher muito bonita e calada, que depois revelou ser uma linguista cujo trabalho é dicionarizar neologismos.

Na história contada por Agualusa nas páginas do romance, a linguista chama-se Iara, e um dia descobre que alguém, ou alguma coisa, está subvertendo a língua portuguesa em nível global, de forma avassaladora e irremediável. Ela procura a ajuda de um professor, um velho anarquista angolano de passado sombrio, e os dois partem para o Brasil em busca de uma coleção de misteriosas palavras que, a acreditar num documento do século XVII, teriam sido roubados à "língua dos pássaros".

Segundo o autor, é uma história de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à atualidade, percorrendo os diferentes territórios geográficos aos quais ela vem se afeiçoando. Afeiçoar, aliás, é uma das palavras favoritas do linguista ao escolher os vocábulos que mais lhe agradam na língua portuguesa, num exercício divertido entre os dois especialistas das palavras.


Agualusa contou que sua relação com as palavras e a literatura são um "namoro" sempre prazeroso, mas nem por isso menos trabalhoso. "Se não fosse assim, trataria de procurar outra coisa para fazer", garantiu. E defendeu a publicação de obras de autores de língua portuguesa de diferentes nacionalidades sem adaptações ou concessões aos usos locais das palavras. "Felizmente já não se fazem mais edições diferentes no Brasil de obras de autores angolanos, ou portugueses, ou moçambicanos. É um non-sense completo", criticou. 

O novo romance de Agualusa está à minha espera, e é certo que irá "furar" a fila de espera que só faz crescer no meu criado-mudo. Por enquanto, deixo aqui um trecho da leitura do livro feita ontem pela atriz Bete Coelho - que optou por ler sem microfone, o que certamente não ajudou na qualidade do meu vídeo.


video

sábado, 30 de outubro de 2010

Clássicos - Qual é o seu? - III

Por Gabriel Bueno da Costa

Meu clássico favorito na verdade são vários. Impossível escolher um só: optar por “Grande Sertão: Veredas” seria deixar de lado “A Hora da Estrela”, assim como ficar com “Édipo Rei” significaria esquecer “Crime e Castigo”, e por aí vai. Mas como me deram a inglória tarefa de escolher apenas um deles, decidi falar de um grande livro, do maior escritor brasileiro.


“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, é uma obra que talvez não tenha agradado muitas pessoas, em uma primeira leitura. Muitos o leram como tarefa escolar, ou contando os dias para a chegada do vestibular, e essas duas experiências em geral não contribuem para despertar paixões literárias.

O texto de Machado, porém, merece uma nova visita, de tempos em tempos. Marcado pela ironia, o narrador, um “defunto autor”, lembra de maneira não linear de passagens de sua vida, em geral medíocre, que inclui um amor não correspondido por Virgília, uma fracassada ideia de emplasto que o levaria à imortalidade e um final melancólico, em que Brás Cubas termina se gabando de não ter tido filhos, para não transmitir “a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

O livro, porém, é muito mais que isso. Com fina precisão, Machado mostra as hipocrisias de seu tempo, e de todos os tempos, quando nos mostra por exemplo os mesquinhos cálculos que muitas vezes fazemos em nossas mentes, diante de qualquer situação. Além disso, nos deixa após essa leitura com personagens marcantes, como a própria Virgilia, de quem o narrador se faz amante, Dona Plácida, a mulher encarregada de cuidar da casa em que os dois se encontravam, e a prostituta Marcela. Com sensibilidade para mostrar e discutir as misérias da sociedade em que viveu, Machado constrói um livro que extravasa sua época, contendo descrições que ajudam a pensar a nossa, e provavelmente os futuros tempos.

O narrador pode ser descrito como desabusado. Ironizando as expectativas do leitor em alguns trechos, construindo um capítulo de diálogos apenas com sinais gráficos, como pontos finais, exclamações e reticências, ou mesmo deixando outro capítulo em branco, apenas com pontos, para demonstrar seu fracasso em tornar-se ministro, está sempre a exigir a atenção do leitor. É verdade que alguém mais acostumado a narrativas lineares, apenas preso à história, pode se irritar. Mas a metalinguagem no texto de Machado nos traz muita reflexão. E diversão, claro.


Outra barreira pode ser o próprio vocabulário. Machado usa várias palavras e expressões que não são comuns hoje em dia. Há edições com notas, que ajudam a superar isso. Além do mais, vencidas as barreiras do início, e com a ajuda ocasional de um dicionário, a obra dele mostra não ser intransponível e vale a insistência.

Poderia ainda destacar vários pontos do livro, a discussão sobre a escravidão, as convenções sociais, a futilidade da burguesia, os sonhos de glória desfeitos, etc. Nada poderia chegar perto da decisão dos leitores de, simplesmente, dar uma (nova) chance a “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

Como estímulo, confira um "livro trailer" sobre essa obra de Machado de Assis, elaborado para estimular os alunos da rede estadual do Paraná a lerem clássicos disponíveis nas bibliotecas de suas escolas. Em desenho animado, com frases do famoso personagem que conta sua história depois de morto, o "livro trailer" apresenta a obra em linguagem de vídeoclipe aos leitores.